terça-feira, 20 de fevereiro de 2001

Preconceitos lingüísticos e Gramática Normativa - Marcos Bagno


Essa palestra foi no anfiteatro da FFLCH na USP e não tenho como descrever tamanha discussão causa esse tema. Por isso, transcrevo um texto do próprio Marcos Bagno, que admiro imensamente por saber muito sobre o que fala, para ilustrar um pouco essa minha opinião:



Existe uma regra de ouro da Lingüística que diz: "só existe uma língua se houver seres humanos que a falem". E o velho e bom Aristóteles nos ensina que o ser humano "é um animal político". Usando essas duas afirmações como os termos de um silogismo (mais um presente que ganhamos de Aristóteles), chegamos à conclusão de que "tratar da língua é tratar de um tema político", já que também é tratar de seres humanos. Por isso, o leitor e a leitora não deverão se espantar com o tom marcadamente politizado de muitas de minhas afirmações. É proposital; aliás, é inevitável. Temos de fazer um grande esforço para não incorrer no erro milenar dos gramáticos tradicionalistas de estudar a língua como uma coisa morta, sem levar em consideração as pessoas vivas que a falam.
O Preconceito Lingüístico está ligado, em boa medida, à confusão que foi criada, no curso da história, entre língua e gramática normativa. Nossa tarefa mais urgente é desfazer essa confusão. Uma receita de bolo não é um bolo, um molde de vestido não é um vestido, um mapa-múndi não é o mundo... Também a gramática não é a língua.
A língua é um enorme iceberg flutuando no mar do tempo, e a gramática normativa é a tentativa de descrever apenas uma parcela mais visível dele, a chamada norma culta. Essa descrição, é claro, tem seu valor e seus méritos, mas é parcial (no sentido literal e figurado do termo) e não pode ser autoritariamente aplicada a todo o resto da língua - afinal, a ponta do iceberg que emerge representa apenas um quinto do seu volume total. Mas é essa aplicação autoritária, intolerante e repressiva que impera na ideologia geradora do preconceito lingüístico.
Você sabe o que é um igapó? Na Amazônia, igapó é um trecho de mata inundada, uma grande poça de água estagnada às margens de um rio, sobretudo depois da cheia. Parece-me uma boa imagem para a gramática normativa. Enquanto a língua é um rio caudaloso, longo e largo, que nunca se detém em seu curso, a gramática normativa é apenas um igapó, uma grande poça de água parada, um charco, um brejo, um terreno alagadiço, à margem da língua. Enquanto a água do rio / língua, por estar em movimento, se renova incessantemente, a água do igapó / gramática normativa envelhece e só se renovará quando vier a próxima cheia. Meu objetivo atualmente, junto com muitos outros lingüistas e pesquisadores, é acelerar ao máximo essa próxima cheia...É com este amor que me defendo das acusações que às vezes recebo de ser autor de um livro "demagógico". Não é demagogia: é opção consciente, política, declaradamente parcial. Peço simplesmente aos leitores e leitoras que meditem sobre esta situação que tanto me angustia: homenagear com o livro pessoas que jamais poderão lê-lo. Isso explica, decerto, a grande dose de indignação que em certos momentos passa à frente da reflexão científica serena e me faz assumir o tom apaixonado de quem não tolera nenhum tipo de intolerância, principalmente quando é fruto de uma visão de mundo estreita, inspirada em mitos e superstições que têm como único objetivo perpetuar os mecanismos de exclusão social.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2001

USP





Carreira
312-LETRAS
Classificação Final na Carreira
568


Passei na FUVEST!!
A USP me espera!!