O tempo...
O tempo é simples: os dias, que serão sempre divididos em horas, que por consequência por minutos, e estes em segundos... Os dias se múltiplicarão transformando-se em semanas e seus ciclos de luas, que somados darão em mês, que de quatro em quatro estações chegam a doze, e já viram ano. Ano que é o décimo de uma década. Década que é um décimo de um século. Ano que é poeira de um milênio...
Tempo, tempo, tempo...
Um mero componente do sistema de medições. Capaz de indicar intervalos ou períodos de duração. Usado para sequenciar eventos, para comparar as durações dos eventos, os seus intervalos, e para quantificar o movimento de objetos. E o tempo vai passando... Em um compasso monótono, constante e corrosivo.
Não é só isso. O tempo é cruel.
Na mitologia grega, o deus Chronos (o tempo), surgiu no princípio de tudo, quando nada existia, formado por si próprio. Um ser sem corpo e serpentino que possuía três cabeças, sendo uma de homem, uma de touro e outra de leão. Uniu-se em um jogo de amor à sua companheira Ananke (a inevitabilidade) numa espiral de encontro e desejo pelo o outro e a volúpia de um prazer antes do nada, por nada, em volta do ovo primogénito, separando-o, formando então o Universo ordenado com a Terra, o mar e o céu. Chronos devora seus próprios filhos uma vez que é impossível fugir ao tempo, todos seriam mais cedo ou mais tarde vencidos pelo tempo.
Nada escapa ao tempo. O tempo vai passando...
O tempo nos devora vivos. Vai nos matar aos poucos, torturante, como se nos degustasse. Saboreando cada um de nossos momentos, nossos membros. Nosso corpo por inteiro. Nos envelhecendo. Divertindo-se com o nossos cacos de corpos e arrotando a saudade do que fomos, ou mesmo, até de coisas que não vivemos.
E que nos resta então? Nem nossas almas serão salvas do tempo? Que alma resiste ao ferro cortante da nostalgia, que nos penetra de forma tão sádica e mortífera, capaz de nos causar nojo e febre. Alma que não quero em meu corpo, pois já estou cansado
de dor.
Tempo, tempo, tempo...
E o tempo não para, e não sei ao certo aonde vamos parar nessa estrada a beira mar.
Um comentário:
Olá Marco
Muito prazer em iniciar correspondência com você!
Você disse que quer ler o que escrevi, mas até hoje só fiz os três exercícios propostos pelo Tiago.
Já consegui o milagre de escrever (pouco), mas ler meu trabalho em público ainda é muito difícil para mim. Fiquei muito mexida no sábado e não acompanhei com atenção devida a leitura dos outros textos.
Li seu texto mais tarde e gostei muito! Você inicia leve, dizendo que o tempo é simples.
É simples se pensarmos em medição, não é mesmo? Mas são várias subdivisões para dar conta, então não é tão simples!
Gostei demais da referência a Chonos e Ananke em sua união amorosa. Depois, vc mostra a ação do tempo, arrasador, levando à decrepitude e à dor. Inevitável, não?
Achei que seu ensaio e o meu conto têm algumas coisas em comum. Por exemplo, quando Teresinha se lembra dos internados no hospital. Ela vê neles a ação do tempo! Lembra que seu corpo já mostra sinais da idade, mas não tão acabado quanto os doentes bem idosos.
Ela se cuida, não quer a dor física, mas já tem a dor na alma: ”Se pudesse..., faria diferente tantas coisas!”. Você diz “já estou cansado de dor”.
Você também se refere à nostalgia. Teresinha “podia se lembrar”.
Você gosta de Cecília Meireles? Em seus poemas, é um dos temas mais recorrentes: tudo passa, tudo acaba, o tempo não perdoa nada nem ninguém...
Mas, estamos vivos ainda, não? E você disse que o importante é viver!
Beijos!!!
Bete
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