Quando menino, folhando aleatoriamente um livro qualquer, perdido em uma estante empoeirada, vi uma palavra que me acometeu de uma curiosidade viciosa. De princípio achei a palavra bonita, como em elogio daqueles que os antigos gentis seculares se tratavam: ablepsifobia.
Mas a minha imaginação foi logo estrangulada quando descobri o real significado em um dicionário. Saber a realidade é sem graça. Mas pelo menos isso me poupou de gafes com o uso de uma palavra como essa em adjetivações errôneas. Mas nem por isso ela perdeu seu glamour com a imponência de seu significado, pelo contrário, ela apenas se transformou, como de uma lagarta em borboleta.
Passei a observar a minha volta e tentava encontrar alguma forma de uso para essa palavra. Tentei encontrar por pessoas a minha volta, por pessoas pelas ruas, estranhos, ou pessoas que nem mesmo haveria de conhecer um dia, mas nada. Passei a ver que as pessoas são cegas e não enxergavam o que era essencial para se ver.
E entender isso me fez olhar para mim uma pessoa que tivesse medo de ficar cego como todo mundo. Não. Não poderia ficar cego.
Meus olhos que sentem a luz. Energia luminosa em impulsos nervosos que adentram pelo nervo óptico e correm impulsivas para meu cérebro. Mais ainda, pois tem coisas que a mente não sabe explicar, e chegam em pancadas doces ao nosso coração.
Passei a ter medo de ficar cego. Achei que era uma pessoa que sofria de ablepsifobia.
E o tempo foi passando, passando.
Esqueci.
A palavra se acrescentou a um leque de diversas outras palavras que fui conhecendo e descobrindo durante a vida. Cresci. Acho que certos encantos também deixaram de me acompanhar.
Fiquei cego.
Tudo passou a ser cinza. As pessoas passaram a usar máscaras. Os dias passaram a ser iguais esperando o amanhã só para continuar o que estava fazendo hoje. Cotidiano, rotina... O que sobrou foi o paladar. Tudo sem sal. O que era doce, acabou-se. Amargo. Fiquei cego.
E por isso nem esperava que um raio de luz pudesse me causar uma sensação tão delicada e carinhosa sobre a minha face. Não pude acreditar quando pude volta a enxergar. Passava a ver novamente por uma mulher que passava distraída pela minha frente. Uma imagem inesquecível foi a primeira vez que a vi.
Ou não. Inesquecível mesmo foi a primeira vez que vi seu sorriso, ou a segunda. Ou então, não consigo esquecer nenhuma das vezes que ela sorriu, ou imaginava ter sorrido e no fundo guardava em sua garganta um nó.
A partir dali, o céu se encontrou com a terra. E ouvi, de um sussurro lançado ao vento:
- Tenho medo...
Estou ficando velho, pois hoje sinto medo de coisas que antes não sentia.
Filofobia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário