Até agora não entendo como pude ter tido olhos para ela. Uma moça banguela, pernas peludas e calcinha de velha.
Essa cegueira que me fez dormir.
Foi no calor do ano novo que acordei e pude perceber que perdi um doce inverno. E no sentido inverso, foi na febre que descobri o que não queria. Arranquei meus olhos. Curei-me da miopia, como um milagre ou uma desculpa.
Mesmo assim ainda não entendo, tonto que estou por despertar.
Quando a vi pela primeira vez era uma estranha.Tinha um ar estranho que a fazia confundir dentre um milhão de mesmas mulheres. Mas em certos momentos é o vento que me dá a resposta. Não havia meras perguntas, mas sim pensamentos. E de repente o vento.
E um tempo sereno de outono era a minha matéria. Minha realidade não estava ali, não passava de um devaneio. Meus olhos estavam fixos em um feixe de luz que se desprendia por entre árvores e sombras. Mesmo com o sol de um céu completamente aberto, sentia o frio que arranhava minha face, mas mesmo assim, nada sentia dentro de mim. Mentira.
Ainda sou o devaneio de um encontro. Sou a parte sentimental do universo.
Mas isso não era um questionamento. E a indagação é o perigo guardado pelos séculos e seus deuses, mas de forma mansa vem a resposta. Ela veio em um sopro tímido de um sussurro ao meu ouvido. Depois se transformou em um balé triste que se forma das folhas que a poucos instantes repousavam ao chão e em rodopios se levantavam ao ar. O vento chegou com uma resposta, flâmula. Revirava as páginas que estavam para continuar a história.
Derrubava o frágil, por mais frágil que se supunha o vento. E a resposta chegava de forma assustadora, mesmo que fascinante.
Amei. Por mais que achasse que certos verbos não se conjugassem no passado. Descobri que sei mentir, ainda que a primavera tardasse. Enfim, amei.
Seus olhos estúpidos, seu bafo de morta.
Voz torta...
Uma falta de atitude que me valem os filmes que não assisti, os livros que me roubaram. O desejo por mais um beijo e uma ilusão que criei para mim sendo paga com o tempo que perdi.
Um tempo perdido pensando nela. Pra quem já foi a representação da mais perfeita criação do universo, hoje vejo a banguela.
Ou então, a minha falta de amor próprio...
Acordei no silêncio, sem ouvir um desejo sincero de bom dia ou qualquer oração.
E a partir daí, todos os dias amanheceram verão. O primeiro trago, do único cigarro, faz-me tirar sarro de mim. Pois na fumaça que se dissipa, posso vê-la se perder como o nada.
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